AXIOLOGIA - OS NOSSOS VALORES

           O que é realmente importante na vida? Eis uma questão que quase todos já se fizeram em algum momento da sua jornada.

         Em Filosofia Clínica tratamos desse assunto no Tópico 18 – Axiologia, o qual diz respeito aos elementos e processos de valoração. Nesse tópico trabalhamos a importância das coisas, estudamos como cada pessoa estrutura seus valores ao longo da vida, como as coisas se tornam e deixam de ser importantes, como se caracterizam esses valores e outros vários assuntos envolvendo a axiologia.

         Mas, o que de fato é importante na vida? A resposta será diferente para cada pessoa, segundo a sua historicidade, segundo a sua estruturação interna. Este é um dado importante, pois muitos, acreditando que cada um escolhe o que lhe é importante, acabam por criar muitos conflitos sem a menor compreensão do que realmente se passa. Quantas pessoas já não brigaram com um ente querido por ele dar importância demais para algo que não concordavam? Essa noção de controle axiológico gera diversas problemáticas ao longo da vida, e buscar compreender como o outro valora é uma das formas com as quais pode-se trabalhar estas questões, compreendendo que para cada pessoa as respostas serão diferentes.

         Antes de prosseguir gostaria de colocar um cuidado essencial no que diz respeito a compreender o funcionamento dos valores. Este cuidado vai para aqueles indivíduos cuja “Estrutura de Pensamento” funciona de tal forma que, ao compreender como se valora algo, o valor a aquilo atribuído acaba por se transformar em medidas, em quantidades, em pesos e até cabos de força. São pessoas que ao olhar para seus valores acabam por mensurá-los e quantificá-los, pessoas que, por exemplo, dão importância para um cachorrinho, um animalzinho que lhe faz tão bem na vida, mas que ao refletir acaba por entender que somente lhe dá valor pela companhia que ele o propicia, tornando isto uma medida, pesando este valor como se fosse um quilo de ração, e em um movimento comparativo entre aquilo que lhe é importante e as despesas que ele lhe traz, acaba por deixá-lo de lado, extinguindo via mensuração um valor que talvez lhe fazia tão bem. Este aviso se estende também para aqueles que ao compreenderem algo passam a olhar apenas para o fenômeno, extinguindo o valor das coisas em si, são pessoas que depois de compreenderem por que dão valor ao namorado lhe dizem: eu percebi você somente é importante por tal e tal motivo, mas isto já não significa nada. É necessário tomarmos certos cuidados, há tantas coisas lindas na vida que com movimentos simples podemos perder, coisas que muitas vezes têm um laço conosco baseado justamente nestes dados de “importância” e que são fundamentais para a nossa existência.

         Agora, falando das formas de valoração, algumas pessoas valoram pela proximidade, ou seja, elas dão importância para aquilo que lhes é próximo, que está ao seu redor. São pessoas cujos valores são proporcionais ao sensorial, quanto mais essa pessoa puder tocar, puder ver, puder cheirar, sentir, mais isso terá valor para ela, mais será importante. Outras, no entanto, possuem valores inversamente proporcionais a essa proximidade, elas valoram aquilo que está longe, quanto mais distante mais valor as coisas possuem. Pessoas assim costumam dar importância quando perdem algo, quando algo se afasta, quando alguém se foi, são pessoas que normalmente não sabem lidar bem com a proximidade. Aqui não existe um certo ou um errado, um bom ou um mal, essas são apenas as formas como o indivíduo se estruturou ao longo de sua vida, como aprendeu a lidar com estas questões de axiologia.

         Outras pessoas valoram por afetividade, quando algo tiver peso sentimental então isso lhes será importante. Às vezes alguém amado, ou um presente dado por um ente querido e que já se foi, coisas que lhe tocam emotivamente. É fundamental o respeito por estas questões, pois muitas coisas que parecem minúsculas são muito importantes pela carga emotiva que elas carregam.

         Já algumas pessoas atribuem valor ao trabalho que tiveram para conquistar as coisas. São pessoas que costumam dizer: eu trabalhei muito para adquirir isso! Eu sofri muito na vida para ter isso e aquilo e é por isso que é importante! Se pessoas assim precisarem valorar algo basta colocá-las para trabalhar, participar, produzir, e o valor virá concomitantemente.

         Alguns indivíduos fazem conectivos, então eles valoram o filho por ele dar seguimento na empresa da família, tendo ele assim mais importância do que teria sozinho. Pessoas assim costumam apresentar no discurso fortes vínculos que nomeiam os seus valores, tais como: meu filho é importante porque além de ser meu filho ele também trabalha comigo. Se você é assim ou se alguém próximo é assim, aproveite e crie vínculos com coisas legais, coisas bonitas, coisas que têm haver com a pessoa, que lhe fazem bem.

         Existem aqueles que valoram por frequência, quanto mais algo se repetir na vida, quanto mais frequente for uma coisa, mais importante isso será. Para pessoas assim é difícil largar uma carreira, uma profissão e até mesmo uma empresa, uma casa, uma família. Quanto mais essas coisas permanecem com a pessoa, mais elas lhe serão importantes. São pessoas que podem facilmente valorar jardins existenciais, coisas que tornem a sua vida bonita, mas que precisam tomar um cuidado gigantesco para não permitir que coisas nocivas e prejudiciais também se tornem importantes, como um trabalho que lhe faz mal ou um lugar que não tem  nada haver com ela, os quais podem se tornar muito importantes exclusivamente pela frequência com que são acessados. É interessante lembrar que o oposto também acontece, são pessoas cuja frequência lhes destitui dos seus dados axiológicos.

         Muitos somente consideram algo importante através das suas abstrações, pela forma como imaginavam algo, pelas vivencias abstratas que possuíam. É assim que muitas coisas que nos sonhos são lindas acabam se mostrar sem cor e importância quando acontecem ou existem realmente na vida. Pode parecer estranho, mas não há nada de errado em ser assim, ao contrário, muitas vezes é justamente esse processo que permite a renovação das buscas, dos sonhos, a constante construção dos caminhos existenciais, renovação essa fundamental para algumas pessoas. Claro que algumas vezes isso é problemático, e alguns ajustes correntes com a pessoa podem ser realizados.

         Algo interessante também é que muitas pessoas, por terem uma axiologia baseada em valores hierárquicos, ou seja, de graus de importância, acabam caindo em vários problemas. São pessoas que dizem: em primeiro lugar é o emprego, em segundo a família, em terceiro... O que não significa a família não possa ser muito mais importante do que o emprego, apenas que no bojo das hierarquias o emprego vem primeiro, é apenas a ordem das coisas e nada mais. Para muitos essa é uma das lições mais difíceis de entender, pois acreditam que organizar os valores significa quantificá-los, mas pode não ser nada disso.

Claro, existem aquelas pessoas que introjetam valores para as coisas, ou seja, elas dão valor às coisas simplesmente por dar, não existe um motivo ou uma forma aparente.

         Agora, é importante saber também que existem pessoas com valores gigantescos, mas os quais não possuem o menor peso subjetivo, são pessoas que não definem as coisas pela sua importância, mas por outros parâmetros e questões; em Filosofia Clínica dizemos que nestes casos que a axiologia (os valores) não possuem peso subjetivo para a pessoa, ou seja, não possuem poder de determinância sobre a vida, sobre a sua Estrutura de Pensamento. Para pessoas assim algo lhes ser muito importante pode não significar nada.

         Aqui nós vimos os conceitos e ideias básicas em torno dos valores. Podemos perceber que muitos são construídos ao longo da vida e de diferentes formas, por diferentes mecanismos. Olhe para a sua vida, perceba para onde estão voltados os seus valores. Existem tantas coisas belas que podem ser valoradas, assim como tantas coisas que nos fazem subjetivamente mal. Podemos cultivar na vida um verdadeiro jardim axiológico, onde colhemos flores, onde colhemos coisas bonitas e que realmente têm haver conosco.